sábado, 24 de março de 2007

O colecionador*

*de John Fowles, 1963 (Edição Grandes Sucessos - Editora Abril Cultural, 1980.)

Acabei há alguns minutos, aproveito a folga que o render me dá para transcrever alguns trechos aqui. Para quem não conhece a história, é difícil explicar, devido a complexa estrutura do texto. Confesso que esquanto lia a primeira parte do livro, achava-o fraco. Quando chegou a segunda parte - o diário de Miranda, de onde retirei todas estas passagens - fiquei surpreendido e envolvido pela narração). O livro conta a história de Frederick Clegg (um colecionador de borboletas), apagado funcionário público que se torna de repente dono de uma fortuna e passa a ter uma grande ambição: sequestrar e manter junto de si a bela Miranda, objeto de contemplativo e sôfrego amor platônico.

Recomendo o livro, vale muito a pena.

pag 164
"...
Eu sabia que fora uma história ridícula, mesmo de mal gosto.Calibã não respondeu, continuando a olhar para o chão.

"Agora é sua vez de contar uma história", disse-lhe eu.


Calibã disse apenas: "Gosto tanto de você..."


E não havia dúvida, tinha mais dignidade do que eu, e senti-me pequena, mesquinha. Estava sempre a odiá-lo, a provocá-lo, a troçar dele, e nunca procurei esconder meus sentimentos. Que estranho! Ficamos sentados um em frente do outro e senti algo como se estivesse muito próxima dele, algo, de resto, que já sentira antes - não se tratava de amor, atração ou simpatia, isso sabia eu. Algo como uma união de destinos. Como se estivessemos os dois abandonados numa ilha deserta, numa jangada - juntos. Não querendo estar juntos, mas juntos...


Sentia também, terrivelmente, a tristeza da sua vida. E a tristeza das vidas de sua miserável tia e prima, dos parentes da Austrália. O tremendo peso morto de uma tal família. Lembrei-me daqueles desenhos de Henry Moore das multidões amorfas nas plataformas subterrâneas do metrô durante os bombardeios em Londres. Pessoas que não viam, que não sentiam, que nunca tinham dançado, desenhado, chorado ao som da música, que não sabiam o que era sentir o mundo, o vento do oeste. Pessoas que, no verdadeiro sentido, não existiam.


Só aquelas palavras, ditas e sentidas: Gosto tanto de você...


Palavras sem esperança, que ele dissera, como poderia ter dito: tenho um câncer.


O seu conto de fadas.

..."

pág 190
"...
Tenho estado aqui sentada, pensando em Deus. Não creio que continue acreditando em Deus. Não se trata apenas de mim. Penso que todos os milhões de pessoas que estiveram prisioneiras durante a guerra devem ter sentido o mesmo. Todas as Anne franks. E durante toda a História. O que penso saber agora é que Deus não intervém. Deixa-nos sofrer. Quem reza pela liberdade, pode sentir certo alívio só pelo fato de rezar, ou porque acontece qualquer outra coisa que lhe traz a liberdade, que a traria de todas as maneiras. Mas Deus não nos pode ouvir. Não tem nada de humano, como seja, ouvir, ver, ajudar, ter piedade. É possível que Deus tenha criado o mundo, bem como as leis fundamentais da matéria ou da evolução. Planejou-o de forma a que certos indivíduos sejam felizes, outros tristes, alguns com sorte, outros não. Não sabe quem é triste e quem não o é, não sabe e não se preocupa. Assim, na realidade, não existe.

Estes últimos dias tenho-me sentido em Deus. Senti-me também mais lúcida, menos cega, mais sã. Continuo acreditando num Deus. Mas é tão remoto, tão frio, tão matemático. Compreendi que temos de viver como se Deus não existisse. Rezas, missas e hinos religiosos - tudo tão estúpido e inútil.

Estou tentando explicar porque decidi esquecer os meus princípios (sobre nunca cometer violências). Ainda acredito nesse princípio, porém, vejo que, por vezes, é preciso violá-lo para sobreviver. Não vale a pena confiar vagamente que a sorte, a Providência ou Deus sejam bons para conosco. Temos de agir e lutar para nos defendermos...


O céu está completamente vazio. Maravilhosamente puro e vazio.

Como se os arquitetos e os construtores pudessem viver em todas as casas que construíram! Ou pudessem viver nelas todas. É tudo tão óbvio... Deve haver um deus, mas não pode saber tudo a nosso respeito.


...


Calibã não é humano; é um espaço vazio disfarçado de humano.

..."


pág 192
"...
Aqui embaixo, as minhas disposições mudam muito depressa. Decido fazer uma coisa, proceder de uma maneira, e, na hora seguinte, mudo completamente.

Não vale a pena. Não sei odiar. É como se em mim houvesse uma pequena fábrica de boa vontade e generosidade produzindo todos os dias e tenho de expulsar uma boa dose do produto cá pra fora. Se conservasse tudo dentro de mim, então explodiria, com certeza!
..."

pág 198
"...
Quanto medo tinha eu de morrer naqueles primeiros dias! Não quero morrer, porque estou sempre pensando no futuro. Sinto-me desesperadamente curiosa quanto ao que o futuro me trará. Que me acontecerá? Como me desenvolverei? Que serei eu dentro de cinco anos? De dez? De trinta anos? Gostaria de saber quem será o meu marido, em que lugar viverei, que países virei a conhecer. Filhos... Não se trata apenas de uma curiosidade egoísta. Esta é a pior época possível para se morrer. Viagens espaciais, a ciência, o mundo desperto e ampliando-se. É o começo de uma nova era. Sei que é perigosa. Mas é maravilhoso estar-se vivo dentro dela.

Amo, adoro a minha era.

Não paro de pensar, hoje... Um dos meus pensamentos foi: os homens que nada criam, quando tem a possibilidade de criar, podem ser considerados homens maus.

O próximo pensamento foi: matá-lo seria como destruir tudo aquilo em que acredito. Muitas pessoas diriam que eu fizera bem, que o fato de ter ido contra os meus princípios não tinha grande importância. Mas todo o mal do mundo é feito por ações e atitudes que, de início, pouca ou nenhuma importância tiveram. É ridículo falar da falta de importância de certas ações. As pequenas ações e o oceano são coisas iguais.
..."

pág 212
"...
Um pensamento estranho: eu não desejaria que isto não tivesse acontecido. Porque, se fugir, serei uma pessoa completamente diferente e, creio, muito melhor. E, se não conseguir fugir, se acontecer alguma coisa de horrível, saberei do mesmo modo que a pessoa que eu era e que teria continuado a ser, se isso não tivesse sucedido, não seria realmente a pessoa que agora desejo ser.
..."

4 comentários:

Guilherme disse...

Sim, eu tinha lido. Tava brincando, tu deveria até ter desconsiderado a brincadeira. O poema é ótimo mesmo, já tinha lido, alguns são muito bons.
Obrigado pelo elogio, fico feliz!

renata disse...

nooossa! li esse livro há séculos! achei que ninguém mais conhecia! :) bjs!

Guilherme disse...

Bom, o vazio maior é, sem dúvida, daquele que pensa. Por um motivo simples: O que pensa, diferentemente do que finge que não vê, sabe, encara, e pensa sobre esse vazio. O que finge não enxergar mascara, mascarar é como, hmm, colocar a sujeira debaixo do tapete, não se enxerga ela, ela não incomoda. Até o dia que se tropeça nos calombos.

Anônimo disse...

Me chamo Christina, li o livro Colecionador de Borboletas duas vezes e chorei as duas; lina primeira ocasião em 1985 e a outra em 1994, tinha uma ligeira imprensão que quase ninguém conhecia essa maravilha de livro.
Eu deveria odiar esse enredo do autor, na ocasião passava porum pessímo casamento (casada com militar ditador, que me humilhava e mantinha também prisioneira..., o livro me deu força a continuar minha leitura, parecia-me real demais, aprendi a achar também que morreria na época, mas minha filha na ocasião com oito anos ajudou de certa maneira (inconciênte)que eu deveria tentar por ela, assim a morte não me parecia chegar muito rápida.
Hoje separada do DITADOR dirânico com quem vivi vinte anos, recordo-me do livro (não com ódio, mas como algo real em minha vida que me deu impulso pra tentar viver; faço terapia a doze anos por conta do casamento fracassado; mais AMEI saber que muitas pessoas numa visão diferente daminha também leram o livro (é simplesmente MA RA VIL LHO SO!)