quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

Duplipensar

Engraçado como a vida imita a arte - ou vice versa.
Acabei agora há pouco (num recorde de tempo, pois comecei ontem) de ler o 1984.
e sinto um misto de esclarescimento e decepção. Talvez seja esta a característica das grandes obras que misturam ficção e realidade, a de nos fazer questionar um pouco o que vemos dia após dia mas que, lá no fundo, nos recusamos a acreditar (talvez pela impotência diante dos sistemas, ou o sentimento dela).

Porque será que me lembro tanto do Brasil (e noutra escala do mundo como um todo, politica e economicamente) quando leio isto?

"Desde que começou a escrever a história, e provavelmente desde o fim do Período Neolítico, tem havido três classes no mundo, Alta, Média e Baixa. Têm-se subdividido de muitas maneiras, receberam inúmeros nomes diferentes, e sua relação quantitativa, assim como sua atitude em relação às outras, variaram segundo as épocas; mas nunca se alterou a estrutura essencial da sociedade. Mesmo depois de enormes comoções e transformações aparentemente irrevogáveis, o mesmo diagrama sempre se reestabeleceu, da mesma forma que um giroscópio em movimento sempre volta ao equilíbrio, por mais que seja empurrado deste ou daquele lado. Os objetivos desses três grupos são inteiramente irreconciliáveis. O objetivo da Alta é ficar onde está. O da Média é trocar de lugar com a Alta. E o objetivo da Baixa, quando tem objetivo - pois é característica constante da Baixa viver tão esmagada pela monotonia do trabalho cotidiano que só intermitentemente tem consciência do que existe fora de sua vida - é abolir todas as distinções e criar uma sociedade em que todos sejam iguais. Assim, por toda a história, trava-se repetidamente uma luta que é a mesma em seus traços gerais. Por longos períodos a Alta parece firme no poder, porém mais cedo ou mais tarde chega um momento em que, ou perde a fé em si própria ou sua capacidade de governar com eficiência, ou ambas. É então derrubada pela Média, que atrai a Baixa ao seu lado, fingindo lutar pela liberdade e a justiça. Assim que alcança sua meta, a Média joga a Baixa na sua velha posição servil e transforma-se em Alta. Dentro em breve, uma nova classe Média se separa dos outros grupos, de um deles ou de ambos, e a luta recomeça. Das três classes, só a Baixa nunca consegue nem êxito temporário na obtenção de seus ideais."

Ah, e acrescentando: a linguagem é muito acessível e fluida e apesar do livro parecer um tanto sureal, eu recomendo.

4 comentários:

quebrando ovos disse...

Grandes obras misturam mesmo a visão de mundo do autor no seu enredo... por exagerar certos aspectos...ou mostra-los de forma surrealista, acaba focando e apontando pra questões tidas como normais e usuais... mas que são tão absurdas quanto às da ficcção.
Mas repito... leia o Nós ( We) do Zamiatin... a única coisa é que é difícil de achar... eu li um xerox pra vc ter uma idéia... procurei agora na net parece que tem pra comprar usado...

abraço!

Renata disse...

ainda não li, mas tá na lista!
a tita gostou? (não pergunto pra ela pq, como fui eu quem dei, talvez ela minta! hahahahahahaha)
beijos guri!

Rodrigo Thor disse...

Phil: achei uma versão em espanhol, não sei se me arrisco. Vou procurar mais.

Rê: A tita não leu, enchi o saco dela pra ver se ela lia ao mesmo tempo, ou ao menos começasse, e pelo que ela disse ela pretende começar logo. Eu li numa versão digital, hehe, estou descobrindo que é muito mais prático e rápido (pq fico focado). beijos!

renata disse...

:s