segunda-feira, 20 de agosto de 2007

O elogio do Amor Puro*

O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. (...)

O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra.

Miguel Esteves Cardoso
*retirado de "O Crime de Laio"

3 comentários:

Léo disse...

Nossa, que coisa ótima!
E penso exatamente isso: ninguém mais me parece disposto a amar pelos motivos certos, ou simplesmente sem motivos...
é uma pena. alguns ainda estão dispostos ao amor puro. quero acreditar que ainda exista.

Niarchos disse...

http://ociosdooficio.blogspot.com/2007/03/malaquias-no-jardim.html

Muito bom esse poema. Hoje fui procurar para postar no meu flog

(www.fotolog.com/niarchos)

cai no Google e te achei! Curti teu blog!!!

Iuri disse...

Belo texto. Aos poucos vou voltando. Eu ia pra Sampa ver o Antony mas quando fui ver, os ingressos já estavam esgotados. Shit !